segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

o incidente


Mais um. Mais um dia, mais um incidente. Após os pratos serem separados dos copos e dos talheres de volta ao seu arrumo, a sala estava calma.
Um silencio de cortar a faca, que numa família de 6 pessoas não era nunca normal.

Algo aconteceu.

Havia mensagens subentendidas em cada olhar que era trocado, como que todos soubessem do que se passada, sem nunca terem a coragem de o confirmar. Sentia-se a respiração a acalmar, e o coração cada vez ritmava menos no corpo de uma mulher com tantas historias e experiencias de vida que era inacreditável a uma pessoa acreditar.

Acreditar, pois é. Era isso que era preciso. Acreditar que nada tinha sido em vão e que cada incidente tinha razão de ser, para alem de causar sofrimento à santa mulher.
Seu homem, sentado imóvel ao seu lado olhava-a com ternura. Ternura tal, com após 50 anos de casamento e bastante comovente. Apesar de já não se tocarem e mal se beijarem os seus olhos ainda ardiam naquela paixão assolapada que os uniu através dos tempos. Era deveras magnifico de se olhar.

Mas agora o seu amor parecia afastar-se e algo parecia querer acabar-lhe com uma das mais fortes razoes de viver: o AMOR.

- Mas o que se estaria a passar? – pensava o homem enquanto os seus olhos deambulavam pela mulher na busca de algum entendimento.

No meio de tanta confusão silenciosa, seus olhos entreolharam-se com os meus, pobre espectadora, que apesar de ainda estar na flor da idade, deparava-me tão imóvel quanto ele. Nos entendíamo-nos, nesse mundo só nosso, porque meu avô sabia como ninguém acalmar-me. Conseguia ver nos seus olhos a tentativa de disfarce do desespero que sentia, mas que no entanto não o abandonava.

Numa tentativa desesperada de resolver o sofrimento e tensão vivida tão calmamente naquela sala, meu pai, o homem ao comando, ordenou que tanto eu como meu irmão nos retirássemos da sala. Eu olhei para ele e de seguida para o meu irmão. Os olhares era fortes tanto de um lado como do outro, mas as mensagens era bastante distintas. Meu pai dizia-me:

- vai, e leva-o. Rápido. – mas na cobardia de o verbalizar, reforço-o apenas com os olhos, de tal forma, que até o homem mais corajoso do mundo o obedecia. Ele era assim. Quando se tratava da família, nada nem ninguém eram mais fortes e corajosos que ele.

Meu irmão, esse, olhava-me com desespero de como quem suplicava por socorro e entendimento. Eu queria acudi-lo mas não podia.
Obedecemos imediatamente à ordem e retirávamo-nos ao ritmo de batimentos de um coração inconstante. Queríamos ficar, mas não podíamos. Olhamos de relance para trás mas depressa desistimos, porque, tal como era de esperar os “senhor general” estava à espreita.

Fechamo-nos no quarto. Aqui o silencio era menos intenso mais igualmente horrificante. Ouvia-se ao de longe o bater de panelas na cozinha, musica na qual a minha mãe era já experiente e obrigada. Alheia a tudo isto, continuava a manter o ritmo que o coração da mulher mais queria ter, mas não tinha. As suas batidas eram cada vezes mais lentas mais sonoras, de tal forma que eu as sentia no quarto. Mesmo assim, não a podia socorrer. Nem ela, nem o meu irmão que imóvel e sem compreender deambulava pelo quarto. Apetecia-me gritar e aliviar este sofrimento do meu peito. Como tentativa olhei-o bem nos olhos e disse-lhe:
- há coisas que por mais que tentes, só um dia poderás entender.

Ele olhou-me ofendido e disse:
- mas quem te disse que não entendo?

Digo eu, pensei. Nem ele acreditava no que tinha acabado de dizer. Seus olhos continuavam na busca das respostas, mas não queria mostrar-se fraco e burro. Queria mostrar que já era grande e que compreendia tudo o que se estava a passar. Mas será que compreendia? Será?

Meu pai entrou em silencio pelo quarto rompendo a hostilidade que se vivia ali. Vinha buscar algo sagrado que já o ajudara antes. Tinha-se que acreditar que resultaria outra vez. Saiu tão depressa como entrou, e foi o bastante para se perceber que a situação não tinha melhorado. Seria a dica para abrir o jogo com o pequeno que na tentativa de se distrair se tinha emaranhano nos livros?

Dirigi-me a janela, impotente, na busca de resposta, mas não a encontrava. Lá fora tudo permanecia igual e até o sol brilhava com tal certeza que nem parecia inverno.
- É ridículo – pensei – como poderia um sol tão belo brilhar numa altura tão sufocante quanto esta? Como é que as pessoas continuavam as suas vidas normalmente como se nada tivesse acontecido?

Só então comecei a deambular por aquelas ruas lá fora onde me sentia mais leve. Não havia incidente, não havia pressão, não havia segredos, perguntas nem respostas. Havia apenas um dia de sol frio como tantos outros se viveram nessa estação. Era mais uma dia, um como tantos outros. Era assim que queria estar, era isso que queria sentir. Mas não conseguia transportar-me plenamente. O meu corpo não obedecia e permanecia imóvel no quarto. Como seria possível preferir estar ali? Só então tive coragem de encarar o meu irmão novamente. Ele estava aparentemente calmo o que provava que no seu mundinho tudo estava bem e tudo isto ficaria melhor. Como queria acreditar eu nisso! Saberia ele algo que me tinha escapado? Ou seria apenas a ingenuidade que lhe era característica?

Olhei para a janela novamente como refugio dos meus pensamentos. Queria falar, precisava falar, mas não podia. Não podia estragar aquela calma. Só podia escrever. Então corri para a mesa e escrevi. Escrevi com todas as minhas forças puxando por memorias que há muito estavam guardadas. Elas quase que se impingiam umas às outras e parar não era opção. Tinha que ser forte e escrever tudo no papel, e talvez um dia, quando ele crescesse, pudesse lê-lo e perceber o que se passava naquela casa. As comportas abriram-se e lentamente as lágrimas escorreram como rios que há muito que não passavam naqueles campos.

Quando me parecia inundada em lágrimas e pensamentos, a porta abriu-se lentamente. Era o meu pai. Ele olhou-nos nos olhos com aqueles olhos de como quem quer dizer algo, mas não consegue. Ele já sabia, ele tinha a resposta para a situação, mas como que um baú fechado a 7 chaves, não conseguia revela-lo. Não consegui conter-me e meus olhos buscavam em todo ele a tradução para os seus. Precisava de saber, era o momento da verdade, agora ou nunca.

Foi então que seu lábios se abriram e murmuram três palavras que se entranharam em mim. Três palavras que alteravam tudo. Numa outra situação podiam não querer dizer nada, mas aqui, hoje, eram a chave mestra para o baú. Só então, as processei, entendi o que elas queria dizer. Como era possível? Entreolhei o meu irmão e ele acenou como que dissesse “eu já sabia”. Como poderia ele saber? Foi então que as palavras começaram a ecoar na minha cabeça cada vez mais alto e mais alto. Sai disparada do quarto e apenas conseguia ouvir o ritmo que me empurrava para a sala. Era mais vivo que nunca. As palavras, cada vez mais barulhentas, ressoavam ao som daquele ritmo que conhecia, era o ritmo que procurva, era o ritmo da vida. Era o ritmo que gritava com as palavras na minha cabeça:
- já está melhor!

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